PANACÉIA DELIRANTE

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quinta-feira, 8 de abril de 2010

Para ninguém

A tristeza
Não, ninguém vai adivinhar a sua tristeza quando você se tranca no quarto e quer se convencer de que quer desaparecer. Não adianta esperar: o telefone não vai tocar, sua mãe não terá um pressentimento e nem seu amigo irá bater à sua porta com uma caixa de cervejas.

A tristeza e a solidão caminham juntas.

Não se iluda com o twitter: anunciar a própria tristeza não te fará menos infeliz, no máximo pode confortar outros indivíduos que pensavam ser os únicos. Ainda assim, será um exercício inútil, pois a dor do outro sempre é menor que a nossa unha encravada... Com sorte, você receberá uma mensagem de apoio ou encontrará alguém no MSN disposto a ler suas lamúrias. Mas você não se sentirá melhor:

A solidão e a tristeza andam juntas

sábado, 3 de abril de 2010

Na rede

Eu tinha dez anos. Era costume, nessa época, passar os finais de semana na casa de praia. A família inteira se reunia: as crianças corriam pelo jardim enquanto os adultos tomavam cerveja discutindo política e futebol. Ainda tinha o videokê, de maneira que as tardes eram embaladas pelo som desafinado dos cantores de fim de semana.

Nesse dia, minha prima estava na rede com o namorado, quase dormindo, enquanto eu esperava a minha vez de demonstrar meu talento musical. Não me lembro quem estava cantando antes de mim e nem tampouco qual a música que desencadeou a cena: ela chorava copiosamente nos braços do namorado, que a consolava com paciência.

Outrora, estava noiva de outro rapaz, que também chegou a freqüentar nosso retiro familiar. Um acidente de moto, porém, interrompeu os planos do casamento, transformando em viúva aquela que nem havia chegado a ser esposa.

Por isso, nesta tarde, a moça chorava tanto. A música reforçava a ausência do noivo, a perda repentina, lembrava os momentos vividos naquela mesma casa (quem sabe se naquela rede?). Acabou a brincadeira, a cerveja, a cantoria... Tudo era apenas dor e constrangimento. As pessoas corriam para buscar um copo d’água, desligar o videokê, pegar um lenço, um calmante, qualquer coisa. Eu, parada, olhava apenas para ele.

Ela chorava a perda de outro nos seus braços e ele não se queixava! Agüentava tudo com resignação, abraçando-a com força enquanto ela berrava desconsolada. Tive pena dele - mais do que dela - achei tão humilhante aquela situação em que se encontrava, à mercê de uma canção, exposto aos habitantes da casa, esquentando a cama que o morto esvaziou. Minha mente infantil não conseguia compreender tamanho grau de desprendimento, embora enxergasse no gesto do rapaz a demonstração de alguma forma de afeto muito superior a qualquer experiência que já tivesse vivido. Tinha apenas dez anos quando descobri que nada sabia dos homens e dos sentimentos.

E ainda hoje, não sei...

terça-feira, 30 de março de 2010

Protesto anônimo


Perguntaram a um professor meu, certa vez:
- Fulana é sua mulher?
- Fulana? É... Acho que é... É!
Pareceu engraçado ele não saber como chamar a sua... (?). Ele não morava com a “?” , mas se sentia casado, embora nunca tivessem entrado em um cartório. O que diriam os autores dos dicionários? E o funcionário do SENSO? Como explicar para as crianças?

Mas para que servem os nomes? - Perguntou o Mosquito para Alice, em Alice através do espelho:
- Os nomes não servem de nada para eles. Mas é útil para as pessoas que lhes dão nomes, suponho. Senão, para que afinal as coisas têm nome?

Para que, pergunto eu?
Você é o quê de Rodrigo? Perguntam:
Conhecida?
Colega?
Amiga?
Melhor-amiga?
Pegueth?
Ficante?
Ficante estável?
Amiga colorida?
Namorada?
Noiva?
Esposa?
Ex-mulher?
Viúva?
Marque a resposta certa.
Ser mestre, doutor, pós-doutor, pai, mãe, avô...
Negro
Pardo
Branco
Mameluco
Tricolor
Rubro-negro
De esquerda
De direita
Centro – esquerda
Atacante
Goleiro
- Quem é você?
- De quem você é?
- De que lado você está?
Eu sou louca ou essas definições pesam? Meus ombros cedem ao peso dos rótulos e passo tanto tempo tentando nomear as coisas que... Raios!
Neologismo serve para isso! Para todas as coisas existe o silêncio...

quarta-feira, 24 de março de 2010

Ciúmes



Sempre que agente se encontrava, ela me recebia com um largo sorriso, seguido da pergunta:

- Como vai, minha bonequinha?

Isso de ser “sua bonequinha” embora devesse parecer um pouco patético, tinha um gostinho açucarado próprio do afeto com o qual ela me dirigia a palavra. Eu aceitava o adjetivo, então, mesmo questionando se ele era realmente apropriado.

- Vou bem, tia. (Ainda que nem sempre fosse essa a verdade)

Foi no dia em que ela estava se recuperando de uma cirurgia – eu tinha ido visitá-la – que descobri toda a verdade. O telefone tocou, e qual foi a minha surpresa quando ela atendeu, dizendo:

- Como vai, minha bonequinha?

A frase, desta vez, não me pareceu patética. Minha tia colecionava em segredo “sabe-se lá” quantas “bonequinhas”, todas se achando exclusivas, coitadas! O gosto da traição me azedou na boca, olhei para o telefone com cara de espanto, mas não obtive nenhuma resposta, nenhuma explicação.

Acho que foi nesse dia que compreendi a possibilidade de se destinar o mesmo tipo de afeto à pessoas diferentes, o mesmo tipo de tratamento e talvez até de tempo. Queremos ser únicos: somos ciumentos, espaçosos, egoístas (que bobagem!).

Ainda hoje, quando nos encontramos, ela eventualmente me pergunta da mesma maneira afetuosa com que perguntava nos tempos de criança – e que pergunta a tantas outras, seja por telefone ou pessoalmente:

- Como vai, minha bonequinha?

- Vou bem, tia. (Embora tenha virado uma pergunta retórica).

sábado, 6 de março de 2010

Vinte e poucos anos



E era apenas o começo


Eu e ela de conversa,
Uma triste,
Outra feliz
Nela, eu via meu possível futuro... o término das coisas.
Ela, talvez visse em mim, seu desfecho... o recomeço.
Eu, de contente, me imaginei triste.
Ela, de triste, talvez tenha ficado mais contente.

Eu e ela de conversa
Uma triste
Outra feliz
E no fim de tudo, a pergunta:
- Quantas vezes teremos que passar por isso?

domingo, 21 de fevereiro de 2010

O despudorado

Depois de muito namorar o colchão, levantei. Tirei os brincos, a corrente, todos os desejos e pus na gaveta. Entrei no banho. Teria saído nua do banheiro, se não houvessem tantas janelas. Coloquei uma roupa leve e fui caminhar na orla.

Quando não existem desejos, só nos resta o usufruto: do sol, do mar, do salitre a salgar os lábios, da música no fone de ouvido... Hoje não queria mais nada! Por precaução, coloco meus óculos escuros; não por causa do sol, e sim para disfarçar a minha cara patética de quem vê beleza em tudo.

No meio do caminho cruzo com um rapaz. Ele, um jovem negro, sem camisa, suado, caminha em minha direção com um sorriso escancarado. Reconheci de cara aquele sorriso, bobo, assim como o meu, de uma inquietante felicidade. Mas, diferente de mim, aquele rapaz exibia os dentes, imoralizava a tarde com a sua alegria, ostentando-a como uma bandeira. Ele passou, eu ri. Teria ele rido de mim também? Ou será que nem havia me notado?

Voltei da caminhada cansada, até meu sorriso cansou um pouco. Ainda assim dedico esse texto ao moço, à sua nudez, à sua felicidade e principalmente, à falta de pudor com que ele desfilava ambos.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Técnica



Ontem, num bar com amigas, começamos a discutir sobre a presença da técnica em nossas vidas. Chegamos, na ocasião, à conclusão de que até mesmo a vida amorosa exige um apuro técnico. Triste, não é? Desolador perceber que há tão pouco espaço para a espontaneidade nas relações interpessoais e que existe um manual de conduta a ser seguido quando se está efetivamente interessado numa pessoa:
• Homem não pode ligar no dia seguinte
• Mulher tem que esperar a ligação
• Uma dose de desprezo apimenta a relação
• Não pode dar na primeira noite...

A lista de recomendações é extensa! Eu, que já tentei quebrar algumas dessas regras, ou convivi com pessoas que também o fizeram (e quem nunca fez?), sei que as chances de fracasso são grandes. Isso porque existe um jogo de expectativas e de estereótipos que estão incrustados, parasitando-nos.
Hoje de manhã escutei uma musica do Gilberto Gil que dizia entre outras coisas:

"O seu amor
Ame-o e deixe-o livre para amar
(...)Ame-o e deixe-o ir aonde quiser
(...)Ame-o e deixe-o ser o que ele é
Ser o que ele é"

Queria, mas como? Antes de aprendermos a amar aprendemos a “como” amar, como agir e o quê esperar. Um passarinho que sempre viveu na gaiola, será que voa se o libertarem? Será que eu conseguiria? Até hoje sempre que tentei, caí. Ainda assim, acho lindo os que quebram o protocolo e se jogam da gaiola (e acho que Thiago deve mesmo morar junto com a menina que ele reencontrou a uma semana pela internet e que nem ao menos viu pessoalmente!). Entretanto, permaneço no mesmo ponto em que comecei esse texto: compreendendo a existência da técnica e disposta a tentar aprendê-la, na esperança que ela me ajude a voar melhor...

domingo, 10 de janeiro de 2010

identidade


Dez e meia da noite e eu em casa: misto quente, biscoito, MSN e televisão.
- Quem te viu quem vê... Penso. Filosofando no meu quarto, começo a pensar sobre identidade. Procuro no Google um texto a respeito. Mas desisto do tema para pensar em estereótipo:

Conhecemos uma pessoa, percebemos três ou quatro características principais e traçamos um perfil, um esboço de quem ela é. Com a convivência acrescentamos outros adjetivos, modificamos um pouco a primeira impressão e assim elaboramos um perfil mais detalhado do sujeito.

Fazemos o mesmo com agente: temos a necessidade de saber quem somos e por isso escolhemos quatro ou cinco características que melhor nos definem.

Este sou eu!

Agora sim podemos nos dedicar a doce tarefa de analisar o que fazemos para entender quem somos; analisar quem somos para compreender o quê queremos; analisar o quê queremos para planejar o que devemos fazer! Traçamos tarefas:

- Você precisa parar de fazer isso e isso...
- Você precisa fazer mais isso e isso...

Aí num belo dia de sol agente acorda e não se identifica com três daquelas características que escolhemos para sintetizar quem somos e... ENTRAMOS EM CRISE! Não sou mais a mesma... O que está acontecendo comigo?

Nessas horas me lembro de Gilberto Gil, que brincando com a letra da música “Eu preciso aprender a ser só”, compôs:


- Eu preciso aprender a só ser...

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Falando nisso...

Inspirada no post anterior, lembrei-me de quando meu pai contou de quando passou por uma esquina de São Paulo e viu uma casa semi-demolida. A parte mais danificada era a do banheiro, agora exposta aos transeuntes.
A imagem era essa: a casa destruída, o banheiro despido e na parede uma pichação:

"Da força da grana que ergue e destrói coisas belas"

Resolvi procurar na internet a foto e a encontrei (embora a visualização não esteja muito boa).

Gabarito



Eu moro perto da orla e desde que a prefeitura liberou o gabarito para a construção de prédios mais altos nessa região, minha rua se transformou num canteiro de obras. As empresas de construção seduzem os proprietários das casas com ofertas de, no mínimo, seis dígitos - quem não fica balançado?

- Um milhão (dois ou mais)... Para demolir a sua casa e construir um lindo prédio no lugar. Um milhão (dois ou mais)... Para levar a baixo suas paredes, suas lembranças, o sonho de construir uma piscina no próximo verão, ou a vontade de colocar uma cadeira de balanço na árvore.

Quanto vale a casa que você não tinha vontade de vender? Quanto vale as recordações dos momentos vividos lá?

Vender o passado por um bom futuro...
...

...

...

... Eu acho que também vendia...

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Medo da maternidade


Boneco Reborn - bonecos que são iguais a recém nascidos, em tamanho e peso.

As meninas já estão cansadas desse papo: MORRO DE MEDO DE ENGRAVIDAR! Isso não se refere apenas ao presente, não me refiro à furos na camisinha ou problemas com qualquer método contraceptivo. Tenho medo de engravidar hoje, amanhã ou daqui a dez anos! Já pensei seriamente em apenas adotar para nunca ter que passar por isso! Uma voz dentro de mim diz: Vai ser traumático!

Felizmente o medo se restringe apenas a mim. Adoro saber que uma amiga minha está grávida (quando me certifico que ela também está, obviamente) embora tenha um pouco de medo de algumas barrigas transeuntes (como elas são duras!).

Mas nessa época de Natal, vendo os comerciais de bonecas na televisão, estou quase sem dormir.

• Boneca que mexe a face sozinha
• Boneca que respira
• Boneca que come e faz cocô
• E esta última: A BONECA QUE CRESCE!!!!

Isso já é feitiçaria! Deixem as crianças usarem a imaginação que Deus lhes deu! Parem de assustar pessoas como eu com essas primas do Chuck ou do boneco do Fofão! Um feliz natal a todas as crianças, principalmente para as que ganharão bonecas de pano.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Fotografia

Já era fim de tarde, estávamos quase indo embora da praia quando o dono da barraca chegou para beber com agente. Ele conhecia meu pai e mais ainda o amigo que encontramos por acaso. No total éramos quatro pessoas, cinco com o proprietário, um senhor negro de barbas brancas e fala mansa. Ele em algum momento comentou:

- Incrível como as pessoas aparecem... Foi só eu abrir um álbum retrato hoje de manhã... Lá vi uma foto sua (do amigo de meu pai), e você apareceu. Há quanto tempo agente não se via?

Senti inveja daquele senhor e de seu álbum de fotografias. Se tivesse uma foto sua, olhava todo dia para ver se você me aparecia de surpresa, guardava ela na carteira ou colava atrás do celular, esperava sua ligação e ainda fazia voz de surpresa:

- Alô, quem fala?

Talvez me falte uma barba branca como a daquele senhor, ou não seja merecedora de tamanha sorte. Hoje o álbum mágico do dono da barraca entrou para meu acervo de presentes desejados. Procurei um belo jeito de encerrar esse post, mas não encontrei. Fecho meu álbum imaginário e vou ver televisão...


Para as pessoas que nuca mais vi, e para aquelas outras que ando querendo ver...

sábado, 12 de dezembro de 2009

Choro.



Tava pensando hoje como existe pessoas que tem o dom de nos fazer chorar. Que coisa maravilhosa essas pessoas! Pode parecer masoquista para aqueles que relacionam choro e dor, mas para mim choro está ligado a alívio. Alívio da dor,é verdade, embora choremos por alegria, irritação, raiva, sono.

Essas pessoas carregam em si o poder de bagunçar nosso emocional, elas nos levam a um nível de estresse, ao ápice da angústia e, por fim, à descarga. Deitamos em nossos travesseiros molhados e dormimos o sono dos justos.

Existe, porém, as pessoas que nos fazem conseguir chorar. Essas são ainda mais especiais. O simples som de sua voz, ou apenas sua presença, são suficientes para que choremos. Parece mágica! Só quem já acordou com vontade de chorar, com as lágrimas na garganta, com uma tristeza enrustida, sabe do que eu estou falando. Só quem, ao ouvir um “ALÔ” desatou num choro, ou ao recebeu um simples abraço, sabe como pessoas assim são importantes.

Não existe sentimento mais degradante que a tristeza morna, meio termo, a tristeza suportável, pão dormido, café gelado.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Fim de semana

Fim de ano chegando e começa aquela ansiedade de se livrar das pendências existentes e entrar no ano decentemente. Pelo menos aconteceu comigo: aquela ansiedade, o excesso de reflexão, a vontade d tomar certas atitudes e corrigir outras.... As últimas semanas passaram nesse espírito, como se o mundo fosse acabar em 2009 ou como se arrependimento realmente matasse!

Mas não mata, e como diz o ditado: o que não mata, fortalece. Encontrar um antigo rolo com sua nova namorada (ficante,peguete, perigeth, o que seja!) abala um pouco nossas estruturas.Porém não é nada que um final de semana de risadas e bebidas não resolva. E para quem vê no álcool um instrumento de fuga, ressalvo que de vez em quando uma bebedeira pode ser uma iniciativa bastante terapêutica, principalmente se vier acompanhada de uns beijinhos - ainda que estes sejam tão vazios quanto o “boa tarde” que damos ao estranho que encontramos no elevador!

Entro então nesta segunda-feira acreditando que existem coisas que realmente devem morrer junto com o ano velho e que precisamos refletir quando o “desapego” é um exercício de inteligência e quando é de covardia.

Basta agora me convencer realmente disso!

domingo, 22 de novembro de 2009

curta crônica


Em frente a si o lago cristalino
O dia quente
O céu limpo

Despiu-se lentamente:
Vestido
Sapatos
Roupas de baixo

Por fim tirou a primeira pena
A segunda,
Arrancou-lhe as próprias asas e entrou na água.

Anjo...
Completamente despido

Não lhe interessa mais os mistérios acima de sua cabeça
Estes já conhece...
Agora é a profundeza que lhe inquieta,
Atrai-lhe,
Chama-lhe...

Cair também é uma escolha

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Febre


“Se a felicidade existe, eu só sou feliz enquanto me queimo e quando a pessoa se queima não é feliz. A própria felicidade é dolorosa.”

Tentei escrever três diferentes textos para definir esse estado de espírito que tão singelamente Vinicius descreve.

Quando a sensação de vida me arrebata, tudo se converte em uma experiência sinestésica. Todos os dias são de sol! A excitação toma conta de tudo e tudo vibra na harmonia do caos (e isso existe?)

Porém, quando não nos dá descanso, a alegria transforma-se em angustia. O sol passa a queimar a pele. A alegria vira insônia e o corpo pede descanso de si mesmo.
- Água, tragam água!
- Preciso desabafar!
- Gritar!
- Dançar!
- Correr!
- Matar!
- Morrer!

Sim, poetinha, a felicidade pode doer. Por isso é preciso, na arte de ser feliz: curtir, CUrtir, CURtir, CURTir, GOZAR... e dormir.
Boa noite, poetinha.

sábado, 24 de outubro de 2009

Biografia

Quando eu estava para nascer, fazia uma manhã de frio. A maternidade ficava numa avenida muito movimentada e quando mamãe abriu as pernas, escutei apenas o barulho dos carros, de maneira que fiquei com muita preguiça sair e fiquei. Para mamãe foi ótimo! Eu tinha medo de viver, ela tinha medo de parir...


Mamãe fechou as pernas e fomos para casa. Tem sido ótimo! Ela me protege do mundo, eu a protejo da solidão. Quando está triste, ou precisa desabafar, eu estou sempre ali, logo abaixo do seio, pronto para ser acariciado sob a barriga. Quanto a mim, basta-me dar um chute de leve que ela já fica satisfeita.


Papai também às vezes cisma de conversar. Eu durmo. Ele fala... Eu durmo... Viro de lado, dou o tal chutinho de volto a dormir. Perfeito!

Nada como manter os olhos fechados e a boca cerrada para experimentar a mais apática felicidade...

domingo, 11 de outubro de 2009

Que belo e estranho dia para se ter alegria!


Sábado:
Acordar tarde,
Sono,
Banho no cachorro,
Almoço,
Trabalho no computador,
O dia vai tomando corpo: Gordo!

Mas basta um “sim” que tudo se transforma.
O típico vira excêntrico
O tédio vira o cômico

De onde nada tinha, quase teve
Quase teve festa em Ipitanga
Quase teve uma peça, mas teve outra
Quase teve uma conta a pagar (teve um baita desconto!!)
Quase...

Todo o dia parecia invertido
Divertidamente invertido
O dia ria-se de si mesmo
Chorava de rir: chuva!
Muita chuva!
Nossa como choveu essa noite!

Hoje ainda chove.
Procurei meu CD de Roberta Sá: sem sucesso.
Ainda assim afirmo: Que belo e estranho dia para se ter alegria!

sábado, 10 de outubro de 2009

A arte de escalar montanhas

Me ocorreu pela manhã de comparar o fazer teatro ao ato de escalar montanhas:
Levam-se dias
É árduo
Cansativo
E algumas vezes, solitário...

Por fim chegamos ao topo e vimos lá de cima (algumas vezes de baixo) a platéia.
Momento...
A platéia, o segundo de blackout que sucede a cena final, os aplausos:
São a paisagem do artista
Alguns minutos ou segundos de contemplação e já se faz a hora da descida.

Sai a maquiagem, o figurino, a fantasia.

Outro dia,
Nova escalada,
Talvez ainda mais árdua,
Talvez menos solitária
E a esperança de que, ao fim, a vista do trajeto faça algum sentido...

Sentido?

Só quem pode compreender o sentido desse ofício doido varrido é quem consegue capturar algum prazer em escalar montanhas.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Tudo beleza


Decidi postar um comentário sobre um debate bastante frutífero do qual participei ontem. Como teria que passar a tarde inteira para escrever o que me pareceu mais significativo, coloco um poema (ou seria letra?) do Cazuza, O Homem Belo, e registro alguns comentários:


O homem belo anda na rua
E todo mundo olha
Homens, mulheres, velhos, crianças
E ele sabe que é belo
E tem um quê de maldade no olhar
Pode ser médico, advogado, engenheiro
Um homem sério, inteligente
Mas sabe que é belo e seduz de propósito
Homens e mulheres
Geralmente os mais narcisistas
Casam com mulheres feias
Os mais modernos, com gatas e gatos
Os mais caretas com a mãe
Mas o homem belo é mau



O poema estabelece uma relação entre moral e beleza. A crença de que “o que é belo é bom” já está enraizada em nosso inconsciente, embora essa estereótipo constantemente se mostre falso. De acordo com Cazuza, e comigo também, ao vermos um homem bonito pensamos:

- “Pode ser médico, advogado, engenheiro, um homem sério, inteligente”.

Ou seja, atribuímos outros atributos positivos ao caráter estético.

Por outro lado, o texto defende justamente o contrário. Ele afirma que o homem bonito é mau, que a beleza é um defeito moral, nascido não da beleza em si, mas da consciência de que se é belo:
“E ele sabe que é belo
E tem um quê de maldade no olhar”

“Mas sabe que é belo e seduz de propósito
Homens e mulheres”
O homem belo seduz indiscriminadamente, sem que haja necessariamente um interesse que justifique a sedução, seduz por seduzir.

Mas o homem belo é mau...

Calma aí Cazuza, que você não era de se jogar fora (antes da AIDS) !