PANACÉIA DELIRANTE

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

A festa

.. Foi ali, parada na pista de dança, cinco doses de bebida na cabeça, zonza pela bebida, zonza pelas luzes, zonza pela danças, que vi: o desenlace amoroso do casal em meio à festa. Assistindo ao beijo de cinema, mordendo os lábios de ciúme, eu  pensei em Foucault. Era uma sexta feira à noite, mas eu só pensava em Foulcault, nas relações de poder, na aprendizagem pela violência, pela necessidade da agressão para evoluir. Eu maldisse a doçura e o medo. Quis pedir a um estranho que me desse um tapa na cara.
É preciso levar um tapa para perder o medo da surra.
É preciso levar um fora para perder o medo da rejeição.
É preciso levar um chifre para perder o medo de ser traído.
E foi assim que aconteceu: do meio da pista de dança, desejei para mim todos os males do mundo (ou quase todos). Quis praticar todos os vícios. Mas a luz da sua luxúria me deu uma aula de filosofia. Hoje eu não penso como ontem e acordo disposta a bater, pois acredito que alguém, assim como eu, deve estar precisando de um bom tapa para acordar...

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Para uma menina com uma flor

Porque você é uma menina como uma flor e tem uma voz que não sai, eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater pino, o que, aliás, você não vai nunca porque você acorda tarde, tem um ar recuado e gosta de brigadeiro: quero dizer, o doce feito com leite condensado.

E porque você é uma menina com uma flor e chorou na estação de Roma porque nosasas malas seguiram sozinhas para Paris e você ficou morrendo de pena delas partindo assim no meio de todas aquelas malas estrangeiras. E porque você sonha que eu estou passando você para trás, transfere sua d.d.c. para o meu cotidiano, e implica comigo o dia inteiro como se eu tivesse culpa de você ser assim tão subliminar. E porque quando você começou a gostar de mim procurava saber por todos os modos com que camisa esporte eu ia sair para fazer mimetismo de amor, se vestindo parecido. E porque você tem um rosto que está sempre um nicho, mesmo quando põe o cabelo para cima, parecendo uma santa moderna, e anda lento, e fala em 33 rotações mas sem ficar chata. E porque você é uma menina com uma flor, eu lhe predigo muitos anos de felicidade, pelo menos até eu ficar velho: mas só quando eu der uma paradinha marota para olhar para trás, aí você pode se mandar, eu compreendo.

E porque você é uma menina com uma flor e tem um andar de pajem medieval; e porque você quando canta nem um mosquito ouve a sua voz, e você desafina lindo e logo conserta, e às vezes acorda no meio da noite e fica cantando feito uma maluca. E porque você tem um ursinho chamado Nounouse e fala mal de mim para ele, e ele escuta e não concorda porque ele é muito meu chapa, e quando você se sente perdida e sozinha no mundo você se deita agarrada com ele e chora feito uma boba fazendo um bico deste tamanho. E porque você é uma menina que não pisca nunca e seus olhos foram feitos na primeira noite da Criação, e você é capaz de ficar me olhando horas. E porque você é uma menina que tem medo de ver a Cara-na-Vidraça, e quando eu olho você muito tempo você vai ficando nervosa até eu dizer que estou brincando. E porque você é uma menina com uma flor e cativou meu coração e adora purê de batata, eu lhe peço que me sagre seu Constante e Fiel Cavalheiro.

E sendo você uma menina com uma flor, eu lhe peço também que nunca mais me deixe sozinho, como nesse último mês em Paris; fica tudo uma rua silenciosa e escura que não vai dar em lugar nenhum; os móveis ficam parados me olhando com pena; é um vazio tão grande que as mulheres nem ousam me amar porque dariam tudo para ter um poeta penando assim por elas, a mão no queixo, a perna cruzada triste e aquele olhar que não vê. E porque você é a única menina com uma flor que eu conheço, eu escrevi uma canção tão bonita para você, “Minha namorada”, a fim de que, quando eu morrer, você, se por acaso não morrer também, fique deitadinha abraçada com Nounouse cantando sem voz aquele pedaço que eu digo que você tem de ser a estrela derradeira, minha amiga e companheira, no infinito de nós dois.

E já que você é uma menina com uma flor e eu estou vendo você subir agora – tão purinha entre as marias-sem-vergonha – a ladeira que traz ao nosso chalé, aqui nessas montanhas recortadas pela mão de Guignard; e o meu coração, como quando você me disse que me amava, põe-se a bater cada vez mais depressa.
E porque eu me levanto para recolher você no meu abraço, e o mato à nossa volta se faz murmuroso e se enche de vaga-lumes enquanto a noite desce com seus segredos, suas mortes, seus espantos – eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfrentando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações – porque você é linda, porque você é meiga e sobre tudo porque você é uma menina com uma flor.
– Vinicius de Morais

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Prestando contas

"Alguém talvez possa estranhar a queda de freqüência na minha escrita. Não é por falta de tempo, ou de disposição. Apenas anda difícil escrever qualquer coisa que não me dê vontade de desdizer no dia seguinte. Então, em dias como esse, onde nada se conclui, nada se sabe, onde o desejo nega o bom-senso e vice-versa, o melhor é ficar calado. O mais prudente é pegar aquele disco do Belchior, ouvir de traz para frente e ficar pensando exaustivamente até não pensar em absolutamente nada. E que o acaso nos proteja do desvio!"

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Cartão postal

Essa é a história de uma garota que não gosta de cartões postais: Achava sem graça.
Era uma garota, dessas que faz declarações em público, ri de si mesma e de suas implicâncias sem motivo.
Mas era uma garota que chegou em casa meio desanimada e encontrou um envelope sobre a mesa com o seu endereço. Mas como? Quem lhe disse tal informação? A existência do envelope era realmente uma surpresa. Até então, ela nem o havia aberto, mas já estava contente de ver seu endereço escrito em letras cursivas, com tanto cuidado, de ver o nome do remetente no verso do papel.
Aí ela abriu o envelope: olhou para a foto do postal, leu o que havia escrito...
Essa é uma história trágica: Do dia em que morreu uma garota que não gostava de postais.